CADERNO DE ESCRITA #01 - Por que escrever?
Um ensaio sobre o desejo, o conflito e o que realmente sustenta um texto. Porque escrever talvez não more no gosto ou na escolha, mas naquilo que insiste e não nos deixa em paz.
Quase todo mundo que escreve já tentou responder a essa pergunta: por quê escrever? Por que continuar escrevendo?
A resposta, quando é dada, costuma vir meio pronta: Escrevo porque gosto. Escrevo porque preciso. Escrevo porque sempre escrevi.
Só que essas respostas têm algo de escorregadio. Sabe o famoso bagre ensaboado? Pois é. Para mim, são respostas que servem para desviar a pergunta, fazê-la deslizar para outro lado. Isso porque, na verdade, na maioria das vezes, a gente escreve sem saber exatamente por quê.
Por mais que, às vezes, a gente crie uma narrativa que gire em torno de a escrita ser uma decisão consciente, tomada na infância ou após algum evento importante na vida, na prática, nossa escrita costuma começar antes da escolha.
A gente gosta da ideia da escrita. Da mística por trás de ser alguém que consegue criar mundos. A gente gosta da perspectiva de ser capaz de encher páginas e páginas de opiniões ricamente embasadas, ou de um discurso profundamente poético. A gente fantasia alcançar os leitores, atravessá-los. Fantasia nosso contato profundo com a riqueza do nosso mundo íntimo, e a apresentação desse mundo para outrem. Fantasia conexão. Mas, ainda assim, por que a gente escreve? Por que não escolhe outra forma de revelar esse mundo íntimo?
George Orwell, em seu ensaio “Por que escrevo” (1946), identifica quatro grandes motivações para a escrita: egoísmo puro (ser lembrado e se vingar de fracassos), entusiasmo estético (beleza das palavras e descrições), impulso histórico (registrar fatos verdadeiros) e propósito político (alterar ideias sociais). Ele enfatiza que todas coexistem em graus variados, e às vezes alguma das motivações ganha mais força. Para ele, no fundo, é como se um “demônio” irresistível impulsionasse o ato da escrita, apesar da exaustão.
Já Joan Didion escreve para descobrir o que está pensando, o que está vendo e o que isso significa, usando a escrita como ferramenta de exploração interna e afirmação do eu. Para ela, a escrita é um ato pessoal de imposição da própria visão sobre o leitor.
Outro pensador dos processos da escrita, Stephen King a vê como prazer puro e completude: “escrevo porque é algo que me completa, pela alegria sincera que a escrita me dá”. Ao mesmo tempo, para ele, deve-se lidar com a escrita com seriedade diária, por paixão, não obrigação.
A escrita, então, surge como um desvio. Como uma insistência. Um pensamento que não se resolve sozinho. Uma pergunta que não cala, e precisa ser elaborada de novo e de novo.
É por isso que, quando alguém diz que escreve “porque gosta”, eu sempre desconfio um pouco. “Gostar” é leve demais para sustentar o que a escrita exige. A escrita, na maior parte do tempo, é fricção. Há algo que insiste — uma imagem, uma memória, uma frase mal resolvida, uma sensação que não encontra forma — e o texto surge como tentativa de dar corpo a isso, sem nunca resolver completamente.
Mas a gente continua, e continua, e continua.
Em muitos textos da literatura, é possível perceber esse movimento: o texto não nasce de uma certeza, mas de uma tensão. Esperando Godot, de Samuel Beckett (1953), por exemplo, nos apresenta Vladimir e Estragon aguardando um Godot que nunca chega, em um ciclo repetitivo. A tensão reside no vazio existencial e na espera sem propósito, com confusão mental e incongruências tragicômicas que negam progressão ou sentido.
Em Dom Casmurro, de Machado de Assis (1899), Bentinho narra com obsessão a suposta traição de Capitu, cujos “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” o atormentam. Mas o leitor fica sem prova definitiva: ela o traiu ou é delírio de ciúme? A tensão surge da narrativa não confiável, da dúvida corrosiva sobre amor, fidelidade e loucura, sem resolução que absolva ou condene.
Em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (1956), Riobaldo confessa um pacto ambíguo com o Diabo para vencer inimigos, mas questiona: “Dei no demônio por malvadez?” ou foi ilusão do sertão vasto e confuso? A tensão interna (bem vs. mal, crença vs. dúvida, solidão vs. destino) impulsiona o fluxo oral e filosófico.
Já em A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (1977), Macabéa, nordestina pobre e invisível no Rio, vive alheia à própria miséria, ansiando por hot-dog e amor impossível, até um atropelamento brutal e sem sentido. A tensão emerge da consciência torturada do narrador (e de Lispector), que hesita em “criar” essa história medíocre, oscilando entre pena, repulsa e o abismo da existência vazia: “quem sou eu para criar gente — e gente assim?”.
Esses textos, como diversos outros grandes textos da literatura, exemplificam a fricção criativa: eles não defendem verdades, mas expõem fissuras (pessoais, regionais, ontológicas) que impulsionam a escrita como tentativa de dar forma ao informe. As tensões estão em toda parte: entre diferentes personagens da narrativa, dentro de um único personagem, entre narrador e personagens, entre obra e leitor. Há um tanto de caos e dúvida se espalhando por tudo o que é bem escrito, convidando o leitor a entrar no texto, lidar com aquela mesma questão e, preferencialmente, sair sem uma resposta definitiva.
Quando alguém começa a escrever, é comum tentar organizar tudo antes: tema, intenção, mensagem. Mas isso, na verdade, pode enfraquecer o texto, porque, muito frequentemente, o que sustenta uma narrativa não é a clareza do que você quer dizer, mas, sim, a força do que ainda não está resolvido.
Um texto muito bem explicado tende a morrer cedo.
Um texto atravessado por uma pergunta viva tende a continuar respirando.
Por isso, em vez de perguntar “o que eu quero dizer?”, talvez a pergunta mais interessante seja: qual é a pergunta que me atormenta? Por qual imagem/ lembrança / ideia eu sou obcecada(o)? Talvez esteja aí o motor da sua escrita.
Exercício
Escolha uma lembrança, imagem ou situação da infância ou adolescência que volte com frequência à sua cabeça. Não a mais bonita ou mais importante: a mais insistente.
Escreva sobre ela por 15 minutos sem tentar organizar, explicar ou concluir. Apenas deixe o pensamento fluir.
Depois, releia e observe:
onde o texto ganhou força?
onde ele tentou se explicar demais?
onde algo ainda pulsa?
Depois de refletir a esse respeito, escreva por mais 30 minutos. Não precisa nem ser no mesmo dia, se precisar de um tempo para a reflexão assentar. Nessa segunda rodada, olhe mais criticamente para o que você tem. Você pode criar personagens para ficar no lugar das pessoas reais. Pode tentar elaborar um início - meio - fim (se for uma narrativa). Pode fazer uma nuvem de palavras, caso esteja tentando escrever um poema. Mas trabalhe mais 30 minutos depois desses 15 primeiros e de refletir sobre as perguntas. E, se tiver vontade, volte aqui depois para contar como foi a experiência :)
Para continuar pensando
Se esse assunto te interessa e intriga, vale observar, entre seus livros preferidos, quais se organizam em torno de tensões, em vez de respostas. Vale também tentar identificar quais são as tensões ao redor das quais esses livros se organizam.
Em diferentes momentos, a crítica literária já apontou que personagens convincentes não são aqueles que sabem exatamente o que querem, mas aqueles atravessados por contradições e dúvidas. Pense nas personagens que mais te cativaram até hoje e tente observá-los a partir disso. Essa afirmação é real para você?
Esta é a primeira edição do Caderno de Escrita, um quadro que eu estou inaugurando aqui na Versilibrista. Esta edição está aberta para assinantes gratuitos, mas, a partir da segunda edição, estará disponível apenas para assinantes pagantes. Caso queira acompanhar, você pode assinar no botão abaixo:
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Até a próxima!







Perfeito. Vc sempre me instiga a escrever.
bjs
Quando comecei a ler seu post (ontem), fiquei pensando em meus próprios motivos para escrever (a gente sempre faz isso). Eu fiz um exercício em uma aula da pós em que a gente tinha que dizer sobre o que nos impulsiona em relação à escrita. Porém, eu comecei a perceber ontem (e hoje) que a gente também escreve como fenômeno social, como você afirma. Quero dizer, antes mesmo de refletirmos nos motivos, somos levados a escrever - seja na escola, obrigatoriamente, ou depois, quando nos percebemos rascunhando versos, bilhetes e cartas.
Claro, depois a gente vai descobrindo o que nos move.
Vou fazer o exercício, fiquei interessado nisso. Porém, ainda não consigo perceber qual é a lembrança mais insistente. Vou ter que me observar durante os próximos dias, para descobrir.
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