#61 - Oceânica
Uma crônica sobre como funciona a escrita quando você deixa as palavras puxarem umas às outras
O difícil mesmo é começar: depois disso, uma palavra puxa a outra, delas vem mais uma, a seguinte logo se cola às que vieram antes e, quando menos se espera, lá está o primeiro ponto final. A ideia vai se desincompletando: o caldo ganha corpo, o corpo ganha força, a força ganha uso e direção. Fecha-se, assim, o primeiro parágrafo.
Depois, a gente vai refazendo o processo, dando braçadas, empurrando a água e puxando o corpo adiante. Acho que escrever tem um pouco de familiaridade com nadar (escrever, para mim, tem familiaridade com muitas coisas, poderia listar). Você toma fôlego, mergulha-se. Sente a água correndo pelos lados do corpo. Eu rodeada por todos os lados, água molhando cada pedaço de mim. A ideia me encharcando. Texto líquido escorrendo pela folha de papel. Não sei se há qualquer coisa que seja assim tão úmida quanto escrever.
O texto é onda. A onda vem e me lava os pés. O texto vem e me lava (me leva). Olho para o horizonte que se estende por cima das ondas, seu ser sem fim. Olho também para o que paira por cima do texto, extenso e amplo. Dois infinitos que na verdade são um só: a revelação do eu infinitamente pequeno. Não há nada menor do que existir. Sou humilde e baixo os olhos diante do encontro do céu e do mar.
Escrever é pulsante. Como o mar, como o sangue, como a respiração. Corpo vivo, tem uma vida toda independente de mim. Apartado de mim: é filho, não membro. Parido, desconexo. Não se move de acordo com meu impulso ou desejo. E sempre urgente, mesmo quando difícil. Porque se às vezes as palavras escorrem fácil, em outras a gente quase morre de sede. Mas elas pingam, as palavras. Escorrem gota a gota. A paciência é fundamental quando não se tem uma fonte abundante onde se possa matar a sede.
O difícil mesmo é começar. Porque o texto, dessa vez, é diferente do mar: ele não está ali. Ele é subterrâneo, um veio de ouro líquido escondido, encravado na terra, à espera por ser encontrado. Eu cavo com mãos nuas para sentir a água brotar. Cavo com dedos em garras. Cavo como quem está para morrer.
E eu morro. Sem escrever, sem mergulhar assim fundo em mim, eu morro, muitas vezes. Porque o que eu preciso para sobreviver é estar rodeada de água. Será que você entende o que é submergir?
O artista é a antena da sociedade – já li por aí. Eu me incomodo com isso. Antena é algo que fica lá no alto, distante, ao vento. Não sei se é como me sinto – descolada, metálica, seca. Só se for antena submarina. Uma antena que capta o que irradia em volta e o que vibra nas profundezas oceânicas do que é ser alguém – do que é estar conectado com o corpo profundo do mundo, o sangue do mundo, pulsando.
Oceânica. Queria adotar essa palavra para mim, pois ela sabe dizer da umidade que existe dentro das minhas palavras. O verde musgo que brota de cada uma delas. Cheiro de coisa quente e viva. Perguntariam, “e ela, como é?” e, do outro lado, responderiam apenas, “ela é assim, sabe? Escura. Oceânica”.
A versão original desta crônica foi publicada em 02 de dezembro de 2017, em O Diário do Norte do Paraná. Ajustei algumas coisas para trazer para cá, mas foi coisa de texto: sonoridades e repetições que eu não percebi na época. No fundo, sigo me sentindo oceânica, de modo que o texto segue dizendo muito de mim.
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