#66 - Lost in translation
"Como traduzir a palavra com a qual transmitem umas às outras o nosso perigo?"
Moro em uma cidade de muitas árvores. Na maior parte do tempo, elas restam pelas calçadas despercebidas, devotadas que são à benevolência silenciosa. Respiram, vaporosas. Resfrescam e protegem. Quase de todo invisíveis.
É só de quando em quando que algum olhar perdido esbarra em suas copas cruzando por cima das ruas. Ou em suas peles duras e gentis. Varrem-lhes as folhas sem lhes dar atenção. É como se apenas coexistissem, a cidade e as árvores, sem língua comum.
As árvores têm uma vida subterrânea e secreta. Trocam recursos e informações por uma rede de fungos - a Wood Wide Web. Eu não inventei isso, você pode pesquisar. Elas também enviam sinais químicos pelo ar. Alertam sobre perigos, compartilham nutrientes e apoiam árvores mais jovens ou doentes. Uma árvore atacada por pragas libera compostos químicos que as árvores vizinhas captam. Então produzem toxinas defensivas em suas próprias folhas.
O que elas não devem comunicar sobre nós, esses bilhões de parasitas se arrastando sobre a Terra? Como traduzir a palavra com a qual transmitem umas às outras o nosso perigo?
Pelas ruas, nem sempre as encontro em seu melhor estado. Tortas, doentes, mutiladas, contornam os fios elétricos, esbarram neles, se misturam. Precisam abdicar da vaidade durante seu desabrochar centenário. Esforçam-se, insistentes. Mas não chegarão a ser o que já foram suas antepassadas, imponentes manifestos da própria vitória.
Na temporada de chuvas, algumas delas caem. Não confessaria em voz alta, mas fico mais triste por elas do que por qualquer dano causado a outrem. Sinto muito pelo seu portão, vizinho, mas você entende o que significa a queda de uma árvore que estava aqui bem antes de você?
Para evitar danos materiais e transtornos com os quais a cidade não aceita lidar, às vezes há podas preventivas. Desconheço os critérios. Muitas delas são derrubadas do alto de sua majestade, sem que eu notasse qualquer sinal de doença. Mas sou leiga e acredito na potência da natureza. A minha não deve ser a mesma lógica da cidade.
Fico pensando que, se cuidássemos melhor das árvores, não haveria necessidade de podas preventivas. Cuidar dá trabalho, sim, eu sei. E nos acostumamos a destruir ou expelir aquilo que já não convém. Achamos que a morte é uma solução. A dos outros, às vezes a nossa. Achamos que existe lixo, que existe fora, que há formas de apagar, mesmo que não. Nada se apaga. É sempre permanência.
Corta-se a árvore. Mas uma árvore não é coisa feita de cimento, de plástico, ou outro material cuja existência já foi desprovida de viço. Uma árvore sangra.
Até hoje, eu nunca tinha visto de perto o sangue de uma árvore. Passei por uma sibipiruna enorme, uma das mais bonitas no caminho que eu tomo até o trabalho, e ela estava no chão. Amontoados de tocos e galhos, as folhas viçosas e brilhantes. O sangue pingando dos cortes, vermelho, manchando o verde que se espalhava por baixo.
Fiquei olhando por um tempo, indignada e impotente.
Era uma árvore vistosa, com algumas outras plantas vivendo em seu tronco. Gosto dessa simbiose, mesmo quando forçada. Lírios e cactos e samambaias crescendo dos galhos das árvores, misturando suas folhas, montando uma paisagem errática e livre. Uma forma bonita de caos.
Mas gosto mais ainda quando a simbiose surge naturalmente e, do tronco de uma árvore, surgem pequenas folhas verdes de alguma planta trazida pelo vento, por insetos ou passarinhos.
Quando as folhas começam a abrir, elas parecem cócegas.
Não sei bem como terminar este texto. A derrubada daquela sibipiruna me deslocou um tanto, e qualquer coisa que eu pensasse em escrever nesta edição perdeu a importância. Queria registrar que ela existiu e esteve no meu caminho diário por mais de um ano. Uma pena não tê-la tocado enquanto estava de pé. Já sorri sozinha ao ver alguém tocar uma árvore, olhando para sua copa, como se saudasse uma ancestral. Hoje eu acho que talvez devesse estar fazendo o mesmo: agradecendo a bondade das árvores de, mantendo-se insistentemente de pé, garantirem um mínimo de bem-estar para nós, os exatos mesmos pequenos parasitas que as derrubam. Gentis, devem saber que não somos todos iguais, que entre nós ainda há aqueles que baixarão a cabeça e entenderão a própria insignificância diante de um mundo que elas ajudaram a construir, muito, muito, muito antes de nós.
As fotos foram todas tiradas por mim. Sinto muito não ter técnica o suficiente para traduzir em imagem o que senti em olhar. O que apresento é pálido reflexo, apenas.
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