#75 - Correspondência completa
Ou: o resultado de uma das poucas vezes que cometi um poema + reflexões sobre correspondências completas
Tenho uma relação bastante ambígua com livros de correspondências. Sabe? Aqueles livros que reúnem correspondências de escritores ou outras personalidades, como o livro Cartas perto do coração, que reúne a correspondência entre Fernando Sabino e Clarice Lispector. Ou o Todas as cartas, entre a Clarice e uma porção de gente, inclusive da família. Ou ainda os vários volumes de correspondências entre Mário de Andrade e diversos escritores e artistas para quem ele escrevia. Por um lado, tenho curiosidade pela fofoca, por saber minúcias sobre a vida de tais pessoas, o que pensavam fora de suas obras, suas angústias, seu cotidiano. Por outro, me incomoda o fato de que cada carta foi escrita com apenas um destinatário em mente, não eram públicas, não era um texto no Facebook. E, de repente, cá estamos nós devassando a intimidade de alguém que nem está mais aqui para decidir se quer ou não que tais escritos se publicizem.
Não sei bem qual lado pesa mais para mim. As melhores histórias que sei sobre meus escritores favoritos vieram de cartas. Conhecer tais histórias me deixa mais próxima deles, além de, muitas vezes, também ensinar muito sobre o ofício. Tenho um livro do Anton Tchékhov do qual gosto muito, chamado Sem trama e sem final: 99 conselhos de escrita, que é basicamente um compilado de dicas de escrita que foram pinçadas de sua correspondência com uma porção de gente ao longo da vida. Aprendi muito com esses textos, muitos dos quais foram escritos para uma amante. Invasivo, né? Quando penso nisso, vem a crise ética. E sigo sobre essa corda bamba, pendendo ora para um lado, ora para o outro.
De todo modo, lá em 2019, quando eu ainda me arriscava mais a cometer poemas (hoje entendo que meu habitat mais confortável é mesmo a narrativa curta), entrei numa reflexão sobre correspondências e redes sociais, pensando: será que o gênero “correspondência completa” está com os dias contados? Porque, uma vez que hoje já não escrevemos cartas (com raras exceções) e até os longos e-mails da primeira fase da internet já soam obsoletos, o que os epistológrafos usarão para construírem as Correspondências Completas dos escritores contemporâneos? Onde os biógrafos encontrarão detalhes secretos e reveladores da vida deles? Será que serão obrigados a vasculhar vídeos do YouTube, posts no Instagram? Será que precisarão descriptografar o arquivo das conversas de WhatsApp para entenderem como se davam as relações entre os escritores, saber quem ajudava quem, quem pegava quem, quais eram as panelinhas e com quem aquele escritor x ou y tirava uma pira sobre o tema do romance que ele estava escrevendo?
Não fui tão a fundo nessas reflexões. Como se sacodisse uma toalha de mesa, apenas deixei algumas migalhas de perguntas suspensas no ar, e assim elas seguem, na minha cabeça: suspensas, sem resposta. Porém, quando esse pensamento me surgiu pela primeira vez, acabei cometendo um poema sobre o assunto, que trago abaixo, logo após a pintura.
Para quem receber essas minhas caraminholas de braços abertos, fica aqui também um pedido de que compartilhem comigo suas reflexões e impressões sobre o que os biógrafos e epistológrafos do futuro usarão em suas pesquisas no lugar das cartas entre escritores e outras personalidades.
Correspondência completa
Os biógrafos do futuro não terão cartas de escritores para mostrar a leitores
curiosos amantes sádicos
buscarão diálogos interrompidos e vagos em redes sociais
vasculhando vestígios de paixões avassaladoras
(ou não)
encontros às escuras
consulta com dentista e confirmação de evento
acho que vai gostar dessa matéria https www
achei uma blusinha linda nas Pernambucanas 29,99, quer que eu leve pra vc?
miga, eu acho que é cilada, se eu fosse você, caía fora.
vai fazer oq mais tarde?
nada rs
vamo se ver?
Os biógrafos do futuro não saberão a respeito de continuidade
as conversas se interrompem e apagam
não saberão sobre suspiros e dúvidas e esperas
[esses bichos fazendo careta parecem
parte da conversa, a gente coloca no livro também?
[coloca, os gifs também, bota tudo na versão virtual.
Os afetos todos virtuais, naqueles tempos.
(mas os afetos sempre foram virtuais, não?)
nos braços
só uma febre e uma angústia terçã.
Os biógrafos do futuro saberão
vida nenhuma se faz de leite e mel
mas buscarão
entre bons dias e boas noites
histórias de amores
histórias que não são.
Os biógrafos do passado notaram: quando Virginia Woolf se matou, o diário de Leonard Woolf, religiosamente preenchido como todos os diários devem ser, permaneceu inalterado, com exceção de uma marca que julgaram ser uma
lágrima
mas que poderia ser qualquer coisa úmida
como chuva ou a água que ele bebia
(de forma igualmente religiosa)
e a tristeza de Leonard será sempre uma suposição
Mas, os biógrafos do futuro,
em que se basearão para falar de ausências e tristezas e saudades
além de carinhas amarelas que choram e sorriem
e no tempo que se encurta ou alarga
entre uma mensagem e outra
numa rede social?Por hoje é isso. Não esqueça de assinar a newsletter, se ainda não for assinante.
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Até a próxima!






Gostei da reflexão levantada Thays. Parece q restarão somente os diários físicos ou virtuais, e talvez imagens e diálogos em códigos pelo whats ou o q valha. Eu gosto de ler livros de correspondências. O livro de julho da Tag é um, vc viu?